domingo, 26 de fevereiro de 2012

Memória (1) - INTERNACIONAL olímpico


O futebol olímpico durante muitos anos foi uma farsa. Em virtude do regime socialista, as seleções do Leste Europeu eram representadas nos Jogos Olímpicos pelos seus melhores atletas, pois o esporte era considerado amador nestes países. Assim jogadores que disputavam Copas do Mundo enfrentavam as seleções ocidentais formadas em sua totalidade por jovens ainda não profissionalizados. O resultado foi uma hegemonia que durou oito edições olímpicas (1952 a 1980).

Para os Jogos Olímpicos de 1984 -  a serem realizados em Los Angeles - COI e FIFA entraram em um acordo para tornar a competição mais atraente. Estariam aptos a participar do torneio qualquer atleta, desde que não tivesse disputado uma partida de Copa do Mundo (incluindo as eliminatórias).

Desta forma os Jogos de 1984, se tornaram a primeira possibilidade real para que os países ocidentais conquistassem o ouro olímpico. Essa situação se tornaria ainda mais facilitada com o boicote dos países socialistas (exceção da Iugoslávia) ao evento.

A CBF atrapalhada, não soube fazer um planejamento sério para a competição. Incapaz de analisar o regulamento, a entidade determinou que somente seriam convocados os atletas que não tivessem disputado a Copa Brasil de 1984 (como era chamado o campeonato brasileiro daquele ano). Assim o técnico Jair Picerni convocou atletas do interior de São Paulo e Minas Gerais, para buscar o ouro olímpico.

Os resultados não foram bons e faltando quarenta dias para o início do torneio, a CBF mudou os planos. A seleção seria representada por um time, no caso o Fluminense, atual campeão brasileiro. No entanto a equipe carioca recusou o convite, assim como outros clubes. O primeiro que aceitou a proposta foi o Internacional, que seria então o Brasil nos jogos olímpicos.

O Internacional havia sido eliminado prematuramente na Copa Brasil (na segunda fase ficou em 3 lugar em um grupo que tinha Flamengo, Portuguesa e Brasil de Pelotas) mas vencera um torneio de consolação disputado por outras equipes também desclassificadas.

Para o colorado a vantagem da proposta da CBF era ter o salário do grupo de atletas pago pela entidade nos próximos dois meses e a possibilidade do clube ganhar visibilidade no mercado externo.

Para não haver críticas da imprensa ficou estabelecido que o Internacional não seria o time, mas a base da seleção. Para isso foram convocados alguns jogadores cedidos por outros clubes, o meia Gilmar (Flamengo), Ronaldo (Corinthians), Tonho (Ponte Preta) e mais outros três atletas. No entanto apenas Gilmar vingou e ocupou a vaga do uruguaio Ruben Paz no meio-campo colorado.

O Internacional era definitivamente o Brasil nos Jogos Olímpicos, e carregando resultados ruins na fase de preparação (chegou a perder da Colatina/ES) não era apontado como disputante a medalha na bolsa de apostas americanas e europeias.

O colorado porém tinha dois grandes trunfos para a competição: o entrosamento e a garra. A equipe se dedicou por inteiro a competição, disputando todas as jogadas e contou com o excelente momento de Gilmar que marcaria 4 gols na competição.

Na Fase de Grupos venceu seus três adversários: Arábia Saudita (3x1), Alemanha Ocidental (1x0) e Marrocos (2x0). Nas quartas-de-final contou com a ajuda da arbitragem para eliminar o Canadá nos penaltes após empatar em 1 gol. O árbitro anulou um gol legitimo dos canadenses sem que no lance não houvesse qualquer tipo de situação que levantasse dúvidas.

A disputa da semifinal contra a Itália, demonstrou como estava a relação do público brasileiro com a equipe. Com a seleção de volêi se encaminhando para o ouro (que perderia) apenas um repórter cobria in loco a partida. Nem o possível atrativo de uma vingança da derrota de Sarria mobilizou a torcida. A partida foi épica: o Brasil conseguiu se impor sobre a violência dos italianos - uma atitude que chamou a atenção da imprensa internacional - e venceu por 2 a 1 na prorrogação.

Surpreendentemente o Internacional, ou no caso o Brasil, chegara a uma final olímpica, algo inédito para o nosso futebol. A adversária era a França, que no mês anterior havia conquistado a Eurocopa sob o comando de Michel Platini. Claro que a base da seleção francesa era outra (apenas Ayache, Biband e Xucreb integrariam a seleção na Copa do Mundo de 1986), uma geração que fracassaria nas competições seguintes (euro-88 e Itália-90) não conseguindo se classificar.

Mas aquele era o momento da França e numa partida difícil os europeus venceram por dois a zero, resultado que se não deu o ouro para o Brasil, garantiu a primeira medalha olímpica para o nosso futebol.



Para todos o que ficou foi a capacidade do INTERNACIONAL em representar o Brasil com dignidade, superando suas limitações e que contrariando todas as espectativas conseguiu subir ao pódio olímpico.


A CAMPANHA

30 July 1984 Rose Bowl, Pasadena, California
Att: 40,779 Ref: Brian McGinlay (Sco) HT: 1-0
BRASIL       3 (Gilmar Popoca, Silvinho, Dunga)
ARÁBIA SAUDITA 1 (Mohammed Majed)
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Pinga, Mauro Galvao, Andre Luis - Dunga,
        AdemirI, Tonho (Milton Cruz) - Silvinho, Gilmar Popoca, Chicão.
Saudi Arabia: Al-Husain - Al-Dawasare (Bakhshwein), Al-Bishi, Bishy,
              Abdulshak - Al-Nasisah (Masod), Majed, Mosaibeth - 
              M.Al-Dosari, Abduljawad, Al-Dossary.

1 August 1984 Stanford Stadium, Palo Alto, California
Att: 75,239 Ref: Cha Kyong-Bok (Kor) HT: 0-0
BRASIL       1 (Gilmar Popoca)
ALEMANHA OC. 0
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Pinga (Davi), Mauro Galvao, Andre Luis -
        Ademir, Dunga, Tonho - Silvinho, Gilmar Popoca, Chicao.
West Germany: Franke - Bockenfeld (Dickgiesser), Bast, Buchwald, Wehmeyer -
              Bommer, Groh, Rahn - Brehme, Schatzschneider (Lux), Mill.

3 August 1984 Rose Bowl, Pasadena, California
Att: 49,355 Ref: Victoriano Sanchez Arminio (Spa) HT: 0-0
BRASIL  2 (Dunga, Kita)
MARROCOS 0
   
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Davi, Mauro Galvao, Luis Carlos Winck - 
        Dunga, Ademir, Tonho - Silvinho, Gilmar Popoca, Chicao (Kita).
Morocco: Badou - Dahan, Lamris, El-Biyaz, Bouyahiaoui - Dolmy, Timoumi,
         El-Bied - Merry, Ouadani (Janina), El-Ghrissi.

 6 August 1984 Paio Alto, California
Att: 36,150 Ref: Luis Siles Calderon (CR) HT: 0-0 (aet, 5-3 penalty kicks)
BRASIL 1 (Gilmar Popoca)
CANADA 1 (Mitchell)
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Pinga, Mauro Galvao, Andre Luis - Dunga,
        Ademir, Tonho (Paulo Santos) - Silvinho, Gilmar Popoca, Chicao
        (Kita).   
Canada: Lettieri - Lenarduzzi, Bridge, Moore, Wilson - James, Gray, Ragan -
        Sweeney, Mitchell, Vrablic (Garraway).

8 August 1984 Stanford Stadium, Palo Alto, California
Att: 83,642 Ref: David Socha (USA) HT: 0-0 (aet)
BRASIL 2 (Gilmar Popoca, Ronaldo)
ITALIA  1 (Fanna)  
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Pinga, Mauro Galvao, Andre Luis - Dunga,
        Ademir, Tonho (Milton Cruz) - Silvinho, Gilmar Popoca, Kita
        (Chicao).
Italy: Tancredi - Galli, Vierchowod, Baresi, Nela - Bagni, Tricella, Serena -
       Fanna, Sabato (Battistini), Massaro.

11 August 1984 Rose Bowl, Pasadena, Califomia
Att: 101,970 Ref: Jan Keizer (Ned) HT: 0-0
FRANÇA 2 (Brisson, Xuereb)
BRASIL 0
France: Rust - Jeannol, Bibard, Zanon, Ayache - Lacombe, Bijotat, Rohr -
        Lemoult, Brisson (Garande), Xuereb (Cubaynes).
Brazil: Gilmar Rinaldi - Ronaldo, Pinga, Mauro Galvao, Andre Luis - Dunga,
        Ademir, Tonho (Milton Cruz) - Silvinho, Gilmar Popoca, Kita
        (Chicao).

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